sábado, 29 de maio de 2010

epifania.

o que escrever p descortinar a virgindade da tela?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Delicadeza Selvagem

Rodoviária de Itabuna. Manhã de sol.

Ela de vestido vermelho e meia preta rendada.
A outra ela de top. Short e sobretudo. Tudo preto.

Ela tem cabelo comprido, preso. As químicas para torná-lo liso e vermelho são visíveis.
A outra ela tem cabelo comprido, solto. A incidência da luz do sol destaca sua brilhante loirice.

Ela aparenta ter 40 anos, entre primaveras e muitos invernos.
A outra ela? Talvez 15, talvez 25. Plástica beleza indecifrável.
O locutor da rodoviária anuncia: “Itabuna-São Paulo, 10 horas”.
Ambas sorriem. Pra ser sincera (é preciso ser, ainda que doa), ambas já sorriem desde sempre. Talvez há 150 anos, reinventando Macondo, elas sorriem.
Agora ela levanta. Com decidido gesto, abraça a outra ela ao seu corpo marcado por memoriosos trajetos.
Os procedimentos já são conhecidos: despachar as malas da bagagem, conferir os tickets de embarque umedecidos pela ansiedade, sentir em toda a extensão corporal o peso das expectativas ou a rotineira obrigação de continuar.
Os minutos transcorrem sem pressa e é ela quem organiza, encaminha, delibera. A outra ela é só serenidade, repousada ao lado do pneu que as conduzirá ao eldorado.
Eu não esperava, mas ela, prenhe de carinhos, resolve tomar a decisão da separação momentânea. Talvez tenha pensado que não ficava bem para uma moça atraente, com umbigo à mostra e sobretudo, ficar por ali. Não sei ao certo.
O caso é que, com surpreendente junção de firmeza e cuidado, toma a outra ela pelo braço, encaixa-a ao seu corpo e a conduz para o interior do ônibus. Como sempre, busca o melhor lugar, acomodando-a na poltrona da frente, para só depois, retornar.
Preciso dizer a vocês, com-panheiros nesta narrativa, que eu me daria por satisfeita se agora pudesse encerrá-la. Guardar papel e caneta, esquecer das mulheres pintadas com o rubro negro da paixão.
Apesar disso (há sempre um pesar a nos contornar, eu sei), certamente tenho a obrigação de partilhar como a vi quando descia daquele ônibus para, sozinha, retornar aos afazeres da viagem.
Ela me pareceu quase igual. A flor da renda, o decote do vestido, os vincos no rosto, até mesmo o riso. Tudo continuava ali.
Talvez quem não a tivesse visto antes pudesse dizer: “É apenas uma mulher que vai para São Paulo, anônima como as outras”.
Mas eu - eu que já havia sido flechada pela delicadeza imanente daquelas duas - eu não poderia dizer, tampouco pensar tamanha insensatez, pois a outra ela – uma boneca de plástico em tamanho natural, comprada em alguma loja de brinquedos por algum valor substancial – era, naquele momento, só lacuna. Ausência abissal que se fazia presente no súbito embrutecimento que dela, selvagemente, se acometeu.
Larissa Santos Pereira, manhã quente, 21 de maio de 2009.

charges, cartoons, imagens



Obra de arte do Stêvz, usurpada de http://www.ideafixa.com/stevz-rafael-sica-elcerdo-e-eduardo-medeiros-bem-vindos/#more-13304

Apesar de ser uam versão masculina, achei bem atemporal.interessante mssm.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

eu

Bem, essa sou eu, em algum lugar da infância.